• Mariana Floria

Sobre ser psicóloga...

Sabe aquela pergunta clássica “Por que você escolheu ser psicóloga?”.


Pois é, para mim nunca foi fácil respondê-la...


Uma das grandes lições que aprendemos ao estudar comportamento é entender o quanto o contexto importa. Nossas ações e pensamentos são produtos de experiências de vida, das relações que estabelecemos com o mundo ao nosso redor.

Costumamos ter a concepção de que escolhemos nossa profissão, mas é impressionante ver como, na verdade, somos escolhidos por ela...


Uma das fases mais delicadas de minha vida se passou quando tinha 12 anos de idade. Estudava em uma escola rígida, que exigia uma dedicação bastante intensa. Além das horas em sala de aula, éramos cobrados a fazer densos trabalhos escolares, produzir resumos críticos de editoriais de jornais, redação, leitura de uns cinco livros ao ano, debates sobre matérias da revista Veja. Cansou? Parece exagero? Tudo era um processo para nos preparar para o vestibular. Sim, apenas 12 anos de idade!


Somado a isso, vinha de um histórico como vítima de bullying. Na época, a escola me direcionou a uma psicóloga. O que diziam? Era muito responsável para minha idade e não conseguia aceitar as “brincadeiras” de meus colegas. Foi uma das primeiras experiências que tive com a culpabilização da vítima – e nenhum trabalho foi realizado com os agressores.


Ao mesmo tempo, tinha que lidar com um caminhão de acontecimentos em minha família: passamos pelo falecimento da minha bisavó, seguido do descobrimento e cirurgia de um tumor cerebral em minha avó. Minha mãe vivia dividida entre um cargo de altíssima responsabilidade e os cuidados de minha avó... E então meu tio (que eu vivia grudada) adoece com depressão.


Acabei por assumir muito desse cuidado também! Nas férias de meio do ano lembro-me de olhar para meu pai e falar: “Só tenho vontade de chorar”. Ali eu já sentia o vazio e o peso da responsabilidade tão intensa... Hoje, com o conhecimento que tenho, sei que ali eu já tinha sinais claros de ansiedade e depressão na adolescência.


Talvez essa seja a fase da minha vida que exigiu mais de mim. Mais doação, mais responsabilidade, mais autocontrole.


E talvez tenha sido a fase em que comecei a plantar a sementinha da minha profissão. Pela vulnerabilidade, pelo sofrimento, pela compaixão...

Dessa mistura toda de experiências que me possibilitou desenvolver sensibilidade, empatia e cuidado.


Exigiu tempo, muito choro (e ainda tem, viu?) e muita terapia para assimilar o quanto essa fase toda foi essencial para moldar quem sou hoje.


Por isso, mesmo sendo por vezes difícil, hoje eu sou grata!


Grata por saber que foram experiências assim que me trouxeram a Psicologia. E grata por saber que foram as relações que construí ao longo de todos esses anos que me alicerçaram e me propiciaram o crescimento tão essencial para exercer essa linda profissão.


E que privilégio ser psicóloga!

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